O excitante retorno à dimensão biológica na educação ambiental: pisar de leve no tapete de cores variadas

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Gessica Lima
Rafael Costa
Viviane Fernandez
Lísia Gestinari

Resumo

Uma leitura atenta ao Plano de Manejo de um município no litoral do Rio de Janeiro foi encontrada a seguinte metáfora: as algas que ocorrem no Monumento Natural dos Costões Rochosos formam um “tapete de cores variadas”. Para um grupo de cientistas vinculados a um Laboratório de Botânica esta definição pode soar infantil e ingênua. Os inúmeros laboratórios de pesquisas cientificas descrevem de maneira precisa, e quase cirúrgica, todas as espécies que ocorrem neste ecossistema. Afinal de contas, os mundos da política, da economia, da indústria farmacêutica e da saúde visitam constantemente este “tapete”. De lá podem sair as curas para várias doenças ou produzir evidências científicas capazes de montar uma peça no quebra cabeça das mudanças climáticas globais. Esquecer a dimensão biológica da educação ambiental não seria perder a riqueza e as cores da pluralidade? De que material o “tapete colorido” é formado? Poderia este “tapete” estar em ação? Consideramos que a ação começa quando nos incomodamos com a constatação de que o mesmo, apesar de colorido, foi apresentado a partir de uma dimensão homogênea. Decidimos, então, pisar com calma neste “tapete” para revelar os vínculos entre elementos heterogêneos, humanos e não-humanos, que fazem-fazer deste pequeno e excitante mundo com suas cores variadas. Neste trabalho, utilizamos a teoria Ator-Rede como referencial teórico-metodológico e o estolão da Caulerpa racemosa como ponto de partida e fonte inspiração. Em termos metodológicos, realizamos os seguintes procedimentos: i) Descrevemos um tapete composto por mais de 100 espécies de algas se associadas; ii)Identificamos vínculos com ações de Educação Ambiental a partir da análise de documentos e de entrevistas com servidores da Secretaria de Meio Ambiente e iii) visitamos, de maneira imaginária, diferentes laboratórios de pesquisa. Concluímos que, apesar de inusitado, o exercício de descrição das algas como híbridas de natureza e cultura nos proporciona uma alternativa àqueles que buscam transgredir a ideia de que existem fronteiras entre as ciências da natureza e a sociedade.

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Como Citar
da Silva Peixoto Lima, G. ., Costa, . R. N. ., Oliveira, V. F. de O., & Gestinari, L. (2026). O excitante retorno à dimensão biológica na educação ambiental: pisar de leve no tapete de cores variadas . Revista Brasileira Multidisciplinar, 29(1), 241-254. https://doi.org/10.25061/2527-2675/ReBraM/2026.v29i1.2438
Seção
Artigo de Divulgação
Biografia do Autor

Gessica Lima, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação

Cursando o doutorado pelo PPG em Biotecnologia Marinha no IEAPM/UFF. Mestre pelo programa de pós graduação em Ciências Ambientais e Conservação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - Campus Macaé. Graduou-se em Licenciatura em Ciências Biológicas pela UFRJ. Tem experiência na área de Biologia Vegetal, com ênfase em Taxonomia de Criptógamas. Foi estagiária de iniciação científica em projetos na área de ensino e na área de taxonomia de criptógamas, sendo bolsista da FAPERJ nestes. Foi monitora de Anatomia Vegetal, além de bolsista do programa Ciências sem Fronteiras na Universidade de Coimbra, Portugal. Foi bolsista do Banco de dados de espécies incrustantes da costa brasileira, como parte do projeto GEBIO (IEAPM/PETROBRAS).

Rafael Costa, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade - NUPEM

Professor Associado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vinculado ao Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade (Nupem/UFRJ). Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE, Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro - FAPERJ). Formação: Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ/2005). Mestrado em Engenharia Ambiental pelo Instituto Federal Fluminense (IF Fluminense/2010). Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação Multidisciplinar em Meio Ambiente, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ/2016). Orienta pesquisas nos seguintes programas: Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação (PPGCiAC) e Programa de Pós-Graduação Profissional em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento (PPG-ProASD), ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro em Macaé. Linhas: i) formação docente; ii) abordagens inovadoras para o ensino de Ciências Biológicas e Ambientais; iii) implementação de políticas públicas e iv) bioinspiração, criatividade e inovação. Coordenador dos seguintes projetos de Extensão: Imaginamundos (Apoio: PR5/UFRJ) e Árvore-ser: Reflexões e Práticas Agroecológicas. Em 2023, iniciou uma colaboração científica com o Ministério da Educação (MEC) para uma avaliação da política pública PDDE Escolas Sustentáveis e criação de uma nova proposta para o Programa Nacional Escolas Sustentáveis.

Viviane Fernandez , Universidade Federal Fluminense, Centro de Estudos Gerais, Instituto de Geociências.

ceanógrafa formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ (2000), mestre em Botânica pelo Instituto de Pesquisa Jardim Botânico do Rio de Janeiro (2005) e doutora em Meio Ambiente pela UERJ (2014). É professora adjunta do Departamento de Análise Geoambiental da Universidade Federal Fluminense - UFF, atuando como professora do curso de graduação em Ciência Ambiental, do qual foi coordenadora entre 2021 e 2023. É também professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Meio Ambiente (PPGMA/UERJ), coordenadora do Laboratório Përisi: ecologia, conhecimento e democracia (Përisi-UFF) (dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/1184669377319238), pesquisadora associada do Núcleo de Estudos em Manguezais (NEMA/UERJ) e do Observatório Interdisciplinar das Mudanças Climáticas (OIMC) da UERJ. Atualmente desenvolve pesquisas ligadas aos seguintes temas: epistemologia ambiental, teoria ator-rede e estudos de ciência, tecnologia e sociedade (CTS) em suas interfaces com as Ciências Ambientais

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